Foto: Courtesy of Sotheby´s Press Images

Estabilidade aparente, transformação real

Entre 2021 e 2024, o faturamento anual dos leilões passou de R$ 96 milhões para R$ 93 milhões. À primeira vista, trata-se de uma leve queda. Considerando a inflação acumulada no período, de aproximadamente 16%, há de fato uma perda real de valor.

No entanto, quando convertido para dólar, o volume permanece praticamente estável, em torno de US$ 17 milhões. Isso indica que o mercado não sofreu uma retração estrutural, mas sim um ajuste interno na forma como o valor é distribuído e gerado.

Essa distinção é essencial: não estamos diante de um mercado em crise, mas de um sistema em reorganização.

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2022–2023: da expansão da base ao ajuste do mercado

O ano de 2022 marcou uma inflexão importante. Apesar da queda de 12% no valor total negociado, o número de lotes vendidos cresceu 15%. Ao mesmo tempo, o tíquete médio caiu 23%.

Esse movimento revela uma mudança clara: o mercado se deslocou para faixas de preço mais acessíveis. Gravuras, múltiplos e obras de menor valor passaram a dominar as transações, ampliando a base compradora e aumentando a liquidez operacional.

Em 2023, o cenário se inverte parcialmente. O mercado registra retração tanto em volume (–16%) quanto em valor (–7%), mas o tíquete médio cresce 11%. Trata-se de um momento de ajuste: menos obras sendo vendidas, porém com maior seletividade e foco em qualidade.

Esse período funciona como uma “recalibragem” do sistema — um filtro que prepara o terreno para a retomada observada no ano seguinte.

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2024: a recuperação puxada por qualidade

Em 2024, o mercado de leilões apresenta um dos sinais mais relevantes da série: o valor total cresce 18%, enquanto o número de lotes permanece praticamente estável.

O resultado é um aumento significativo do tíquete médio, que atinge R$ 11.370 — o maior nível do período analisado.

Esse dado carrega uma leitura importante: o crescimento não foi impulsionado por volume, mas por qualidade da oferta. Em outras palavras, não foi a quantidade de obras que aumentou, mas o nível das obras colocadas à venda.

Esse comportamento reforça uma característica estrutural do mercado de leilões: ele responde tanto à demanda quanto à disposição dos consignantes em ofertar peças relevantes. Quando há confiança no ambiente de mercado, a qualidade da oferta aumenta — e, com ela, o valor médio das transações

Foto: Act Arte: Relatório de Leilões de Arte do Brasil – 2021 ao 1º semestre de 2025,

2025: liquidez, escala e eficiência

Os dados do primeiro semestre de 2025 indicam uma nova fase. O valor total negociado cresce 14% em relação ao mesmo período do ano anterior, atingindo R$ 45 milhões. O número de lotes vendidos avança ainda mais: +38%.

Mas o indicador mais relevante é a liquidez, que alcança 46% — o maior nível da série histórica.

Liquidez, nesse contexto, representa a proporção de obras efetivamente vendidas em relação ao total ofertado. Seu aumento indica um mercado mais eficiente, capaz de conectar oferta e demanda com maior precisão.

Mesmo com a queda do tíquete médio para R$ 9.157, o crescimento em escala e a melhoria da eficiência compensam amplamente esse movimento. O resultado é um mercado mais ativo, mais dinâmico e menos dependente de vendas pontuais de alto valor.

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A anatomia do mercado: volume, valor e concentração

Um dos pontos mais relevantes do relatório está na análise da estrutura de preços, que revela como o mercado se organiza internamente.

A faixa de até R$ 10 mil responde por mais de 80% do volume de transações, mas representa apenas até 20% do faturamento total. Trata-se da base operacional do sistema — responsável pelo giro e pela liquidez cotidiana.

Já o segmento intermediário, entre R$ 10 mil e R$ 100 mil, emerge como o verdadeiro motor econômico. No primeiro semestre de 2025, ele responde por 44% do faturamento, consolidando-se como o núcleo financeiro do mercado.

Por fim, as obras acima de R$ 100 mil representam apenas 1% a 2% do volume, mas ainda concentram 38% do valor total negociado. Embora esse segmento continue relevante, sua participação vem diminuindo, indicando um mercado menos dependente de “grandes lotes” isolados

Foto: Act Arte: Relatório de Leilões de Arte do Brasil – 2021 ao 1º semestre de 2025,

Entre pulverização e concentração: o papel dos artistas

O ranking de artistas reforça essa dualidade.

Os dez artistas mais vendidos por volume representam cerca de 15% dos lotes e 16% do valor — um sinal de pulverização, com ampla participação de diferentes nomes.

Por outro lado, os dez artistas com maior valor agregado concentram 28% do faturamento total, embora representem apenas 6% dos lotes vendidos.

Esse padrão — muitos participantes em volume, poucos concentrando valor — é típico de mercados maduros, nos quais coexistem amplitude de oferta e concentração de capital

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Um mercado mais maduro, eficiente e estratégico

A principal conclusão do relatório é clara: o mercado de leilões de arte no Brasil está mais maduro.

Essa maturidade se manifesta em três movimentos principais:

_Aumento da liquidez, indicando maior eficiência nas transações
_Expansão da base compradora, com maior participação em faixas acessíveis
_Fortalecimento do segmento intermediário, que sustenta o crescimento

Mais do que isso, o mercado passa a depender menos de eventos excepcionais e mais de um fluxo consistente de transações — um sinal de estabilidade estrutural.

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Por que isso importa

Os leilões ocupam um papel central no ecossistema da arte. São ambientes públicos, transparentes e verificáveis, responsáveis por estabelecer referências de preço e reduzir assimetrias de informação.

Em um país onde a formação de novos colecionadores ainda está em desenvolvimento, a evolução desse mercado não é apenas desejável — é estruturante.

O que os dados de 2025 indicam é que o Brasil começa a avançar nessa direção.

Se essa trajetória se mantiver, o mercado de leilões deixará de ser apenas um canal de venda para se consolidar como um dos principais pilares de confiança e formação de valor no mercado de arte nacional.


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